Cicloviagem, o início

Cicloviagem, o início

Em setembro de 2021, sem experiência em cicloviagem e com bicicletas carregadas de barraca, comida, materiais de circo e tudo o que precisávamos para viver, deixamos Recife. Não sabíamos exatamente o que encontraríamos pela frente. Sabíamos apenas que queríamos ir.

Naquele período, estávamos morando em Brasília Teimosa, no Recife, atravessando os efeitos da pandemia e tentando continuar trabalhando com arte de rua em meio a todas as dificuldades impostas por aquele momento.

Foi nesse contexto que recebemos a visita de Julieta Hernández, multiartista e experiente cicloviajante. Julieta era uma dessas pessoas singulares que carregam consigo outras possibilidades de imaginar a vida. Sua presença, suas histórias e, principalmente, a maneira como escolhia viver e percorrer o mundo nos atravessaram profundamente.

A passagem foi breve. O impacto, não.

No mês seguinte, decidimos que também partiríamos de bicicleta.

Preparando a partida

Não tínhamos experiência com cicloviagem e tampouco uma grande estrutura para começar. Vendemos algumas das coisas que possuíamos, doamos a maior parte e começamos a reunir o básico necessário para colocar a vida na estrada. Mone ganhou de uma amiga, Amanda, uma bicicleta aro 29 usada. Em sua homenagem, a bicicleta também foi batizada de Amanda. Para Ana, compramos uma bicicleta aro 26, também usada, que recebeu o nome de Coni, homenagem a outra amiga que nos deu suporte naquele período.

Com Amanda e Coni, alguns equipamentos básicos, barraca, fogareiro, itens pessoais, água, comida, materiais de circo e nenhuma experiência, estávamos prontes (ou tão prontes quanto seria possível estar).

Na manhã de 11 de setembro de 2021, partimos.

A saída de Recife já nos mostrou que aprenderíamos fazendo.

Precisávamos atravessar o trânsito caótico com bicicletas extremamente pesadas enquanto ainda tentávamos compreender como conduzir aquela estrutura enorme. Tudo o que precisávamos estava preso às bicicletas. Além dos equipamentos para acampar e cozinhar, carregávamos nossos pertences e os materiais que permitiriam continuar fazendo circo pelo caminho.

Seguimos pela BR-232.

Os primeiros dias e, na verdade, quase todo o primeiro mês, foram uma espécie de escola da estrada.

Aprendemos aos poucos a pedalar bicicletas monstruosamente carregadas. Aprendemos a reconhecer lugares onde poderíamos parar, a conversar com pessoas pelo caminho e a entender a dinâmica de dormir com alguma segurança em postos de gasolina. Aprendemos a administrar água e comida, a conviver com o desgaste físico de passar o dia inteiro pedalando e, principalmente, a enfrentar o calor.

Não houve preparação capaz de substituir essa experiência. Foi a própria estrada que nos ensinou a viajar.

Cruzamos de bicicleta boa parte de Pernambuco seguindo em direção ao Sertão do Pajeú. Havia também um motivo especial para escolher aquele caminho: queríamos reencontrar Julieta, a pessoa que, poucas semanas antes, havia plantado em nós a ideia daquela viagem.

E encontramos.

A partir dali, seguimos juntes em direção ao Ceará. Em determinado momento, nossos caminhos voltaram a se separar: Julieta continuou sua viagem rumo ao Norte, enquanto nós permanecemos rodando pelo Nordeste.

A viagem que havia começado quase impulsivamente, com duas bicicletas usadas, poucos equipamentos e nenhuma experiência, já estava transformando nossa maneira de viver, trabalhar e compreender os territórios que atravessávamos.

A estrada virou caminho

Naquela manhã de setembro, não tínhamos como saber a dimensão da decisão que havíamos tomado.

O que começou como uma partida se transformou em quatro anos de estrada.

Quatro anos pedalando, conhecendo comunidades, realizando trabalhos artísticos, encontrando pessoas, atravessando cidades e aprendendo outras formas de estar no mundo. Aos poucos, bicicleta, circo, viagem e trabalho deixaram de ser coisas separadas.

A bicicleta passou a ser transporte, casa em movimento e ferramenta de encontro. O circo viajava conosco. E cada lugar onde parávamos tinha alguma coisa para ensinar.

Saímos de Recife sem saber viajar de bicicleta. Aprendemos pedalando. E, durante os quatro anos seguintes, enquanto atravessávamos territórios, encontros e caminhos, a estrada também atravessava e transformava a gente.


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